ARTIGO: O Mundo dos Poderes


Se perguntarmos as crianças o significado da palavra “poder”, a resposta será cheia de colocações que nos levem a entender que poder é alguma espécie de energia sobrenatural cósmica. Não exatamente como raios, trovões e ventanias, mas sim como algo que não podemos explicar cientificamente, vide exemplos: poder de regeneração, poder de voarmos mesmos sem sermos alados, de atravessarmos paredes como no filme “Ghost”, de conversar com os mortos, de teletransportarmos a locais distantes, etc.

Em Antropologia da Política, entendemos a palavra poder, que tem origem no latim, “possum”, e significa “ser capaz de” como sendo, “a capacidade de influenciar alguém a fazer algo que de outro modo não faria”. Essa reflexão, ao menos no aspecto sociológico, segue por caminhos bastante espinhosos e complexos, o que tende a afastar a maior parte das pessoas a pensa-las mais a fundo. Portanto, a maioria contenta-se apenas com o debate da “política do dia” e, visto que todos os dias a política cria assuntos polêmicos, o qual em si mesmo já possuem méritos (ou deméritos) para serem debatidos com ardor, os temas mais filosóficos e críticos acabam ficando no segundo plano, porém não o são menos importantes.

Segue-se que, mesmo involuntariamente (ou inconscientemente), estamos sempre a pensar e estabelecer um juízo sobre as seguintes coisas: “até onde pode ir o meu poder?”, “até onde o poder do Estado pode ir com relação a mim e em relação as outras pessoas?”, “quem podemos influenciar com nosso poder e quem aceitamos e não aceitamos que nos influenciem com seus poderes?” etc.

Tudo isso está atrelado a uma representação simbólica e ideológica. Em outras palavras, cada um tende a se aproximar daquilo que melhor representa seus interesses — é o que acontece, por exemplo, nos períodos de eleição. Diferentes grupos formam diferentes tipos de poder e consequentemente esses poderes possuem níveis e formas de se manifestar, chocando-se uns com os outros e delimitando-se entre si. Ou seja, onde termina o poder de um, começa o poder do outro. Um exemplo bastante simples é pensarmos nas formas de poder que constituem uma democracia, o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, sendo que analogamente a eles, encaixa-se perfeitamente a relação de âmbito privado familiar, onde uma pessoa possui certo nível de poder sobre as ações de seu cônjuge, outro tipo de poder sobre as ações de seus filhos e ainda outro sobre seus próprios pais ou parentes distantes. E claro, o mesmo acontece em relação a todos esses entes, pois eles também exercem diferentes tipos de poder sobre as ações de tal pessoa. De modo geral, todas as relações de poder estão em diferentes níveis e manifestações em todas as relações sociais.

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), em sua obra magna “O Príncipe”, chegou a conclusão de que o governante deve de proteger o seu poder a qualquer custo, dando vida a concepção de que “os fins justificam os meios”, criando assim, uma espécie de hegemonia da violência, onde a força poderia ser utilizada sempre que o poder do Príncipe (ou chefe de Estado), fosse ameaçado.

Outro teórico político, Thomas Hobbes (1588 – 1679), em sua magna, “O Leviatã”, justificou o surgimento do Estado, como um pacto que os homens fizeram entre si abrindo mão da liberdade em troca da segurança. Desse modo, entende-se que, o homem do paleolítico que vivia sem Estado não tinha nenhuma proteção, porém, era livre para ir onde quisesse e tomar posse do que bem desejasse, sendo assim, os poderes naturais se chocariam, tornando-se “o homem, o lobo do homem (homo, homini lupos)” numa guerra de todos contra todos. Então, estando o homem sujeito a todos os malgrados que a natureza pudesse lhes pregar, como por exemplo, correr risco de ataques de animais selvagens ou de passar fome pela dificuldade consequente da vida nômade, convencionou-se a criação de uma organização que, hoje entendemos por Estado — tendo ele a função de proteger o homem de si mesmo (pela criação das leis) e proteger o homem das mazelas da natureza (pela união da força), ou seja, Deus soberano no céu, e o Rei absoluto na terra.

Seria interessantíssimo pensarmos o que Hobbes e Maquiavel responderiam a qualquer bom filósofo libertário dos dias de hoje, quando este os questionasse a respeito dos altos impostos que somos obrigados a pagar, e, em troca recebemos coisas que não pedimos ou que não precisamos... Isso quando recebemos alguma coisa!

É evidente que toda teoria de pensamentos possui fragilidades e incongruências. Ninguém resolveu completamente os problemas do mundo, e é certo que ninguém conseguirá resolve-los. No fundo, essencialmente falando, os livros dos filosofo são apenas palavras, e essas palavras só “ganham poder” quando começam a refletir interesses de diversos grupos sociais, demonstrando e denunciando as suas reais necessidades e apontando as soluções para então alcança-las, suprindo assim o sofrimento (presente em todas as épocas, desde que o mundo é mundo).

Em tudo há relações de poder, e ao que parece isso tende ao caos, porque como é sabido, um poder choca-se com o outro e no final ninguém é feliz o bastante com o que tem, sendo que todos acabam sofrendo com a sua falta de capacidade de influenciar os outros, mesmo que se trate de alguém que já possua muito poder de influência. Por isso é correto dizermos que apesar de todos morrermos, “sempre gostaríamos de poder ter vivido mais”. E com isso, a satisfação com o que temos que sim — muitas vezes é pouco e miserável — fica sempre na insatisfação, na distância, na estranheza, na idealidade...

Se todos exercem algum tipo de poder, mesmo que seja pouco, como podemos ser felizes e satisfeitos com o poder que temos? A resposta que a maioria dá para isso é que, a satisfação só poderá ser alcançada no mundo do pós-morte... Onde tudo é divino, igual e bem distribuído... Mesmo sempre aceitando a ideia de que gostariam de poder viver mais!

Sobre essas convicções é certo que nesse mundo dos poderes o homem continua sendo o lobo do homem, e de certa forma, desejando isso.

Olhar a realidade e as nossas próprias potências com sinceridade para buscarmos um ideal satisfatório, entendendo que o poder é bom sim, mas que deve ser exercido com mediunidade e nunca com extremidade, é a nossa função, e não função do choque exercido pelo poder do outro (que sempre nos afeta de algum modo). Por isso, quem se mantém fiel ao equilíbrio que exerce sobre os outros, tende a viver melhor e sofrer menos, pois a história mostra que, quanto mais íntimos nos tornarmos do poder, menos o respeitamos! Encontremos então em relação ao poder, uma distância ideal e agradável... Não tão longe que não possamos vê-lo e nem tão perto que não possamos contempla-lo.

AUTOR: Antonio Alves


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